NatGeo | Na foz do Amazonas, açaí gera renda e protege a floresta

Técnica de manejo de mínimo impacto adotada no Amapá conserva mais de 200 espécies e estoca 170 mil toneladas de CO2.

Por Kevin Damasio
National Geographic Brasil, 21 de abril de 2022

Arquipélago do Bailique, Amapá | Na viagem de barco de 160 km de Macapá, capital do Amapá, até o Arquipélago do Bailique, uma espécie se destaca na mata ciliar: o açaí-de-touceira. Essas árvores representam, a um só tempo, um símbolo da rica biodiversidade da foz do rio Amazonas e uma atividade econômica que, com a floresta em pé, sustenta a vida de milhares de famíliasda região.

O extrativismo de açaí no Bailique constrói um novo capítulo desde 2016. Produtores locais uniram-se para criar uma cooperativa e adequaram suas técnicas tradicionais para obter a primeira – e até agora única –certificação de manejo florestal e cadeia de custódia de açaí do Forest Stewardship Council (FSC). Em dezembro passado, os 128 extrativistas deram mais um passo importante na valorização do fruto, com a inauguração de uma agroindústria onde o açaí já está sendo beneficiado em polpas.

“O açaí é uma espécie que precisa de sol e sombra. Se estiver muito sozinho no sol, vai dar um açaí seco, sem qualidade, que não vai ter muitos nutrientes. Se estiver muito na sombra, ele não vai se desenvolver tão bem para ter uma grande produção”, observa Amiraldo Picanço, 35, produtor de açaí e presidente da Cooperativa dos Produtores Agroextrativistas do Bailique e do Beira Amazonas (Amazonbai), enquanto navegamos pela foz do Amazonas. “A gente tenta manter essa floresta em equilíbrio, com o mínimo de intervenção na natureza.”

As açaizeiras de troncos finos podem alcançar 25 metros de altura. Em matas nativas é possível encontrar até 12 touceiras (como as árvores são chamadas) em um único local. Isso gera uma forte competição por nutrientes e, consequentemente, reduz os cachos de açaí, explica Amiraldo. Para manter açaizais baixos e produtivos, os produtores derrubam touceiras tortas ou que tenham mais de 12 metros, que representam maior risco de acidentes na coleta.

O manejo de açaí deixa as touceiras com um distanciamento de cinco metros entre elas, intercaladas por espécies típicas da região de várzea, como árvores de andiroba, pracaxi e taperebá. Foto de Kevin Damasio

Uma touceira fica em torno de 5 metros de distância da outra nas áreas manejadas, intercaladas por espécies típicas da região de várzea, como árvores de andiroba, pracaxi e taperebá. Assim, os produtores diminuem a competição por nutrientes entre as açaizeiras, que passam a produzir frutos de melhor qualidade, um cacho de açaí maior e mais maduro, ao mesmo tempo em que preservam a flora nativa que sustenta a fauna local.

A preocupação com a biodiversidade resulta na conservação de árvores onde abelhas instalam suas colmeias, como andirobeira e pau-mulato, e pássaros fazem seus ninhos, a exemplo dos taperebazeiros e pracaxizeiros.Esse cenário, que, claro, não é visto em monoculturas de açaí, evidenciou aos produtores os benefícios de manter o ecossistema em equilíbrio na foz do Amazonas.

“A natureza faz quase todo o trabalho para a gente”, observa Amiraldo. “Quem irriga é a maré, com a água do rio. A adubação é pela matéria orgânica das folhas do açaí, da debulha, dos cachos. A polinização quem faz são as abelhas que estão no meio da floresta.”

Amiraldo cresceu na zona rural de Macapá. Filho de agricultores, graduou-se na primeira turma de engenharia florestal da Universidade Federal do Amapá e, no mestrado na mesma instituição, se especializou no manejo do açaí. O engenheiro florestal esteve pela primeira vez no Bailique em 2009, quando trabalhava como assistente técnico no Instituto Estadual de Florestas do Amapá. Também frequentou as ilhas quando estagiou na Embrapa, com pesquisadores pioneiros em introduzir técnicas de manejo do açaí na região.

O Bailique é um distrito de Macapá de 1,7 mil km2, composto por um conjunto de oito ilhas situadas na foz do Amazonas.O arquipélago abriga mais de 7,6 mil habitantes em 51 comunidades.Na cooperativa, Amiraldo tem uma área certificada de 10 hectares em São Pedro do Bailique, na Ilha do Franco, e foi eleito presidente em março de 2021.

Em 2019, a Amazonbai obteve do FSC duas declarações de demonstração de serviços ecossistêmicos, pela conservação da diversidade de espécies e de estoques de carbono florestal. Para comprová-los, os produtores realizaram um inventário com 259 espécies importantes para a biodiversidade da região. Seis delas possuem status de vulnerabilidade conforme o Ministério do Meio Ambiente (onça-pintada, tamanduá-bandeira, guariba, pomba-botafogo, tucano-de-papo-branco, tucano-de-bico-preto) e duas estão ameaçadas segundo a lista vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza (maçarico-rasteirinho e pica-pau-de-coleira).

Além disso, identificaram que as unidades de manejo, que compreendem 2.971,71 hectares,armazenam quase 170,7 mil toneladas de carbono. Isto é, cada hectare manejado estoca quase 60 toneladas.

Hoje, são 85 manejadores no Bailique e 43 no Beira Amazonas. Segundo Amiraldo, há outros 200 produtores cadastrados, que passam por um processo que envolve o mapeamento da área e cursos de manejo, cooperativismo e primeiros-socorros. “É praticamente um ano fazendo capacitação, para se adequar às nossas normas e poder se cooperar à Amazonbai.”

A certificação FSC, obtida no final de 2016, tem validade de cinco anos. Nesse período, o Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola (Imaflora), certificador autorizado pelo conselho, realizou monitoramentos anuais. Uma auditoria de recertificação ocorre no último ano desse período. Em virtude da pandemia de covid-19, ela foi adiada para 2022.

“Nas boas práticas, tem o cumprimento de toda legislação aplicada para aquela atividade – ambiental, trabalhista, fiscal –, exigência de garantia de direito de posse e uso da terra e dos recursos que estão sendo manejados. O respeito aos direitos das populações tradicionais inseridas naquele território”, pontua Bruno Castro, coordenador de certificação do Imaflora. A cooperativa precisa ainda desenvolver um mecanismo de proteção da área certificada, para que não haja conversão da floresta nas unidades de manejo para outros usos, nem atividades ilegais como desmatamento, degradação, roubo de madeira e caça.

“Mais do que simplesmente manter a floresta em pé, a Amazonbai trabalha com a manutenção do funcionamento do ecossistema. Mantém ali o máximo das características naturais da floresta que manejou, seja em termos de estrutura, composição, diversidade de espécies de fauna e flora”, analisa o engenheiro florestal. “Mantém outras espécies de palmeiras, outras árvores que também são importantes para o funcionamento daquele ecossistema, a condição do solo, do rio e das APPs [áreas de preservação permanente], e entende a importância da fauna para polinizar, para dispersar sementes.”

Depois de coletado no alto das touceiras – as árvores de açaí –, e ainda na floresta, os caroços são debulhados sobre uma lona para serem ensacados. Foto de Kevin Damasio

Manejo de mínimo impacto

Em uma manhã de dezembro, quatro produtores adentram a floresta manejada atrás de açaí em São João Batista. Nessa vila na Ilha do Curuá, a família Barbosa vive em duas dezenas de casas, rodeada pela Floresta Amazônica por onde passa o igarapé do Macaco. Dos 80 parentes que moram na comunidade, nove são produtores da cooperativa.

“Isso aqui é tudo certificado – uma área que, se for sumir por aí andando, leva duas horas, tanto pra cá como pra lá, e é açaizal da mesma forma. Esse manejo foi feito há uns três anos, então requer manutenção”, conta Pedro Barbosa, de 43 anos.

“A preocupação nossa é fazer o manejo de mínimo impacto, porque tanto nós como os animais vamos usufruir dessa floresta. Depois que começamos a manejar, observamos a grande diversidade”, continua Pedro. “Tanto é que estão cada vez procriando mais nessas áreas que a gente intervém de forma correta, que não agride o meio ambiente.”

Pedro também atribui ao manejo uma alteração da safra, que tradicionalmente ocorre de março a agosto. “Chegava no finalzinho de agosto passando mal sem beber açaí”, conta o produtor, cuja unidade de manejo tem 9 hectares. Em dezembro passado, durante a visita da reportagem, ainda havia açaí para ser colhido.

Diogo sobe rápido para coletar os cachos de açaí em uma touceira. Em cinco minutos, já desceu e entregou as ‘vassouras’para os tios, Pedro e Fabrício, realizarem o processo da debulha – a retirada dos frutos pretos, que caem sobre uma lona estendida no solo da floresta. Em seguida, os irmãos iniciam a catação, a primeira etapa da limpeza no processo do manejo. Tiram os talos da vassoura, além dos caroços (como é chamado o açaí in natura) secos e verdes. É nesta hora que os produtores identificam se há presença de barbeiro, hospedeiro do protozoário que causaa doença de Chagas. Depois, despejam o açaí selecionado e limpo em uma sacacom capacidade de 28 kg – o equivalente a duas latas do fruto. A saca é feita de fios de náilon, de modo a manter o açaí arejado até chegar ao barco da cooperativa.

Quando a ideia do novo manejo florestal chegou ao Bailique, Fabrício, 40, irmão de Pedro, encarou a ideia com resistência. “Era doloroso derrubar uma árvore de açaí. Hoje, tenho uma visão totalmente diferente. A produtividade com o manejo é muito grande, dobra de produção.”

Fabrício conta que a família conserva a natureza de São João Batista desde que seus avós maternos migraram do Pará para o Amapá e se estabeleceram na vila. Segundo ele, a família nunca caçou e consumiu carne de caça, nem investiu na extração de madeira, práticas comuns na região até os anos 1980. Viviam dos abundantes peixes que habitavam o igarapé do Macaco, agora escassos desde que o leito secou.

Nos anos 1990, os pais de Fabrício e Pedro enxergaram o potencial do açaí como atividade econômica, uma alternativa ao palmito, alimento com pouca rentabilidade e que exigia a derrubada de árvores. Na época, já surgiam os “atravessadores”, compradores interessados no fruto do Bailique, principalmente vindos do Pará. O estado paraense concentra 62% da produção de açaí no Brasil, enquanto o Amapá é o quinto da Amazônia Legal (1,29%), segundo dados de 2020 do IBGE.

A paixão pelo açaí fez com que Fabrício estudasse sua cadeia produtiva no ensino técnico em agronegócio. “O açaí tem três fases: parau, preto e tuíra”, me explica o bailiquense. “O parau está no início da safra – a gente tira pro consumo, mas não é bom pro mercado. O preto tá bom pra tirar pro mercado, só que não tem uma rentabilidade de polpa. O tuíra já é um produto de qualidade, tem uma rentabilidade muito boa.” Naquele final de safra no início de dezembro, os “caroços” tirados pelos Barbosa já estavam na fase tuíra.

Fabrício é diretor e produtor da Amazonbai, com uma área certificada de pouco mais de 8 hectares. Ele estava na reunião em que a cooperativa foi fundada em 2017. Mas a adoção dos produtores do Bailique ao manejo de mínimo impacto começou um ano antes, com a criação do protocolo comunitário e a fundação da Associação de Comunidades Tradicionais do Bailique (ACTB), para tratar das demandas e interesses gerais dos bailiquenses. Em dezembro de 2016, a ACTB obteve a primeira certificação FSC de manejo do açaí.

Depois surgiu a Amazonbai, que, focada na cadeia produtiva do fruto, assumiu a certificação. A cooperativa, por sua vez, criou a agroindústria – a Casa do Açaí, no centro de Macapá, primeiro com o açaí in natura; depois a agroindústria na zona rural do município, inaugurada em 10 de dezembro de 2021, com o beneficiamento em polpas congeladas. Em 2018, a Amazonbai obteve para a indústria a certificação FSC de cadeia de custódia.

Os articuladores locais do Bailique e do Beira Amazonas avisam aos produtores o dia da coleta em cada semana, recebem as sacas, pesam, fazem anotações, emitem recibo para o cooperado e embarcam o produto. O barco da cooperativa tem o porão forrado de gelo e revestido com isopor e capacidade para armazenar 2 mil latas. O ambiente gelado conserva o açaí durante a viagem de 12 horas do Bailique ao Porto de Santana, próximo à fábrica. Assim que o porão lota, começa a jornada de cerca de 200 km pelo rio Amazonas. Na agroindústria, o açaí passa por um processo de catação, lavagem, branqueamento, despolpamento e homogeneização, até se transformar em polpas congeladas de 100 g e 1 kg.

O Arquipélago do Bailique é um distrito de Macapá, capital do Amapá, formado por oito ilhas e habitado por 7,6 mil pessoas. A Vila Progresso é a principal e mais habitada, onde se concentram os serviços estaduais básicos como de saúde, correio e escola. Foto de Kevin Damasio

Relações de mercado

Geová Alves, 36, presidente da ACTB e vice-presidente da Amazonbai, observa que a relação entre produtor e atravessador – da comunidade ou de fora – ainda é muito forte. Mas, na visão da cooperativa, “é uma relação muito desonesta”. “Quem deveria ser o melhor remunerado na cadeia produtiva deveria ser o dono da matéria-prima, que é o produtor, porém é o que menos recebe nessa relação.”

A união dos produtores em uma cooperativa deu força para criar um novo mercado e estabelecer uma relação institucional no extrativismo de açaí na região, acredita Geová. “O objetivo é melhorar a condição de vida do cooperado, e não fazer concorrência com atravessador A, atravessador B, empresa A, empresa B.”

Segundo Geová, de 2017 a 2019 o mercado do açaí no Bailique e no Beira Amazonas tem se comportado em função da cooperativa. “Quando a cooperativa está atuando, o mercado tende a manter um preço alto. Em 2020, não teve safra da Amazonbai [por conta da pandemia] e a lata do açaí no Bailique [14 kg de fruto in natura] chegou a 5 reais”, analisa o produtor, que tem uma área certificada de mais de 200 hectares em Macedônia, na Ilha do Brigue. “Há um ganho econômico. Faz a diferença na vida do produtor, mesmo ainda não sendo o ideal, porque só conseguimos agregar valor ao produto a partir da polpa.”

A mudança na dinâmica do mercado foi além do Bailique. Produtores do Beira Amazonas aderiram à cooperativa em 2019. A região também está situada na parte amapaense da foz do Amazonas, mas no continente, onde vivem aproximadamente 2,5 mil famílias em 19 comunidades ribeirinhas entre Macapá e Bailique.

Aldemir Santos Corrêa, 35, é conselheiro da cooperativa e representante do ‘Beira’, além de técnico em extensão rural do Instituto de Desenvolvimento Rural do Estado do Amapá (Rurap). O ribeirinho cresceu no Beira Amazonas acompanhando o pai na coleta do açaí. Considera que 2021 foi um “marco histórico”, pois pela primeira vez conseguiram vender a saca do açaí a, em média, R$ 160. “Por conta da relação que estabeleceram no território, a cooperativa automaticamente vai comprar e o atravessador acaba aumentando o preço, para poder concorrer.” 

A capacidade de produção dos extrativistas da Amazonbai é de 480 toneladas de açaí por safra, estima a cooperativa. A agroindústria, por sua vez, consegue processar atualmente2 toneladas por dia, mas, segundo Amiraldo, eles trabalham na ampliação da capacidade para 6 toneladas diárias.

Aldemir entende que a cooperativa não consegue eliminar a relação entre produtor e atravessador, uma vez que a agroindústria da Amazonbai absorve entre 10% e 30% da produção. O restante ainda é escoado para atravessadores. A concorrência da cooperativa, no entanto, tornou essa relação comercial mais justa.

Muitas vezes há três atravessadores no caminho do açaí entre o produtor e a safra, explica Aldemir. Cada um desses atores reduz o valor que paga pela saca, para aumentar o lucro próprio. Empresas que industrializam o fruto costumam antecipar o dinheiro, geralmente R$ 200, e o preço pago pelo atravessador ao produtor variava entre 90 e R$ 120 reais pela saca. “Baixou um real da empresa na antecipação do recurso para o atravessador, aqui baixa 10, 20 reais. Ou seja, é uma relação de mercado cruel, o lucro pelo lucro, e quem recebe menos é o produtor.”

“No Beira Amazonas, quando a cooperativa entrou e estabeleceu o dia de compra, o preço estava em 140 [a saca] e iria descer para R$ 100. A cooperativa chegou e no outro dia aumentou para R$ 180 reais. Ganhou o cooperado, assim como outras centenas de produtores que estão nas regiões e nas comunidades que comercializam o produto”, continua Aldemir, produtor com unidade de manejo de 59 hectares na comunidade Nossa Senhora de Nazaré, na foz do Macacoari, afluente do Amazonas.

Já o manejo, na visão de Aldemir, serviu para aprimorar ainda mais o caráter de preservação ambiental dos moradores do Beira Amazonas e do Bailique, o que os estimula a cuidar da natureza com mais afinco. “Além de ser valorizado, são aprendizados que vão pra vida toda. A partir do momento que você decide desenvolver aquela atividade, isso passa de pai pra filho, de gerações. Enquanto pelo Brasil afora você vê N atores desmatando, devastando a Floresta Amazônica, aqui tem o selo de que a gente tá cuidando bem dessa floresta.”

Filho de agricultores, Amiraldo Picanço nasceu na zona rural de Macapá e se formou em engenharia florestal. Descobriu sua vocação no manejo do açaí e hoje preside a cooperativa de produtores do Bailique e do Beira Amazonas, a Amazonbai.

Floresta revigorada

Em uma manhã de verão, os primos Aldair e Geovani Corrêa adentram a floresta certificada no Retiro Flecheiro, na comunidade Nossa Senhora de Nazaré, no Beira Amazonas. Após alguns minutos de caminhada pela mata fechada da área de preservação permanente, a floresta adquire um visual diferente na porção manejada há dois anos por Aldair. Entre as touceiras mais velhas, de cerca de 12 metros, observa-se claramente o distanciamento de cinco em cinco metros, além da diversidade de espécies da flora.

Incontáveis perfilhos, brotações que surgem das açaizeiras ou de sementes dispersadas pela fauna, brotam ao longo da área manejada, frutos de uma combinação da reprodução das touceiras e das sementes dispersadas por aves e outros animais. Esses brotos são irrigados pelo ciclo de cheias da foz do rio Macacoari e nutridos pelos raios de sol que chegam moderadamente ao solo, nas brechas das árvores nativas. Os perfilhos levam até quatro anos da germinação até começarem a produzir frutos.

Com o manejo – ou a ‘roçagem’ –, “daqui um ano você vai ver que já tem muitos ‘filhotões’, porque cai e fica no chão. Aí, com a claridade, ele brota. Quando é uma área fechada, brota, mas não tanto”, observa Geovani, de 37 anos. Ele acompanha o primo nessa área, mas maneja também no seu próprio terreno, em 1 hectare de quase 16 certificados, e é articulador local da comunidade em Nossa Senhora da Conceição.

Aldair maneja quatro dos 18 hectares de sua unidade. Durante a safra, ele trabalha com o “sistema de meieiro”. Contrata pelo menos um peconheiro da comunidade – um coletor que sobe nas touceiras para tirar o fruto –, para auxiliá-lo na colheita do açaí, seguindo as exigências das certificações. A cooperativa disponibiliza todo o equipamento – capacete, luva, facão com bainha, lona, saca. Aldair fica com 50% da produção e o peconheiro contratado com a outra metade. Cada um chega a tirar R$ 600 por dia durante os cinco meses da safra do açaí.

Em 2020, mesmo com a suspensão das atividades da Amazonbai em virtude da pandemia, Aldair conseguiu vender cerca de 80 sacas de açaí. Em 2021, com o início do funcionamento da agroindústria, estima ter entregado uma centena de sacas para a cooperativa.

O açaí é a principal renda da família de Aldair, composta também pelo trabalho como professor de história na Escola Família Agroecológica do Macacoari, para a qual a Amazonbai destina 5% dos lucros. Além disso, eles cultivam uma roça e pescam para consumo próprio, fora da área de manejo. “O açaí é a atividade econômica que dá sustentabilidade para as famílias, principalmente pelo preço, produção e atividade”, afirma Aldair. “O produtor vem aqui pela manhã e tira quatro, cinco sacas. Passa o resto da tarde em outra atividade, já com seus 200, 300, 400 reais.”

Os avós de Aldair, paraenses, migaram para o Beira na década de 1930, atraídos por um aquecido mercado de exportação de madeira, couro, palmito e seringa. Buscavam uma melhoria de vida, mas terminaram em situação análoga à escravidão. Trabalhavam como agricultores na propriedade onde viveram em Ipixuna Grande, mas tudo que produziam tinham de entregar aos donos da terra. Segundo Aldair, eles só conseguiram se libertar quando migraram para aquela região na foz do Macacoari, a 10 km, e compraram um terreno de 300 hectares, onde eram os únicos moradores. Os avós foram dividindo a área entre os nove filhos ao longo do tempo.

A atividade econômica no Beira Amazonas foi mudando com o passar dos anos. Além da exploração de madeira, o palmito era muito forte na década de 1990, impulsionado por uma fábricainstalada na foz do Macacoari. No final dos anos 1990, o açaí deixou de ser apenas um fruto abundante na dieta diária dos ribeirinhos para virar um produto comercial. “Mas era 12, 15 reais a saca, e não tínhamos açaizais”, lembra Aldair. “Tinha um local onde tiravam um açaizinho, mas não dessa forma do manejo. Não tinha esse olhar de tirar o açaí de larga escala. Com o tempo, através de estudo, de curso, a gente foi tendo essa prática e o açaí foi se tornando uma renda.”

Aldair graduou-se em história em uma universidade particular de Macapá e estudou na escola Família no município de Mazagão, onde trabalhava práticas de cultivo de açaí. Em assessorias técnicas da Embrapa e de programas estaduais, o manejo do fruto começou a ser praticado no Beira Amazonas. “Mas uma atividade tímida, um sistema de pesquisa que não avançava”, lembra.  “O manejo que a gente trabalhava, muitas vezes, não tinha tanto cuidado com a natureza. A gente esquecia das outras espécies, ficava só açaizal. E aí a cooperativa veio com a nova prática de mínimo impacto dentro da região.”

Aldair notou a transformação no ambiente desde que adotou o manejo certificado. Essa área, que décadas atrás fora muito explorada para a extração de palmito e de madeira, agora vibra com uma diversidade marcada por virola, anani, pracaxi, andiroba, murumuru e, claro, o açaí-de-touceira. “Você consegue ver os pássaros, os animais dentro da área. Isso pra gente é incrível”, reflete Aldair. “Minha família era de madeireiro, seringalista, por um longo período trabalhou com palmito e couro de caça – jacaré, gato-maracajá. Naquela época era a sobrevivência deles. Hoje a gente tem esse olhar de cuidado com o meio ambiente, de preservar as nossas árvores, de que não precisa devastar a natureza, respeitando os animais, nossos igarapés.”

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