Blog | Maias na Oca

Um mergulho na cultura dos maias, na primeira exposição que acontece fora do México

Por Kevin Damasio

Em uma noite de terça-feira, às 7 horas, chego ao Museu da Cidade, a OCA, no Parque Ibirapuera, São Paulo. É minha segunda ida a exposição “Mayas: revelação de um tempo sem fim”. O horário de visitação já acabou, mas me direciono para lá ao encontro de Afonso Luz, diretor geral do museu. Ele considera essa mostra um marco na história da OCA – mostra que, aliás, terminou em 24 de agosto, dia em que a casa completou 60 anos. Não é por menos: esta é a primeira vez que as raridades maias são expostas fora do México.

Meu objetivo era entender melhor os significados das principais peças da exposição, em um universo de mais de 300. Para a minha surpresa, ao lado de Afonso estava Roberto Velasco. Pesquisador do Instituto Nacional de Arqueologia e História do México, há 14 anos o mexicano estuda os povos primitivos que habitaram as terras de seu país – astecas e teotihuacanos, por exemplo. Desde 2011, ele está focado na cultura dos maias, que construíram uma enorme civilização durante o Período Clássico (250-900 d.C).

Depois de me apresentar, mostro uma edição da National Geographic americana, de dezembro de 1975. Nela, há um especial de 90 páginas sobre o povo maia, na qual Afonso e Roberto mergulham por alguns minutos. Vez ou outra, o mexicano para em uma página e conta a história por trás de peças e ilustrações estampadas na revista. Como as “Cabeças de Pakal” e o “Dintel 48 de Yaxchilán”, cujos significados conto mais à frente.

Peço, então, para que a dupla me apresente as 10 peças expostas ali que são mais simbólicas para a cultura maia. Conforme escuto as histórias, as figuras à minha frente ganham cada vez mais vida e significado. A sensação é de voltar no tempo ao mergulhar na cultura de um povo extremamente avançado para a época em que vivia, o que se reflete na complexa atuação dos maias em diversas facetas.

Dos rituais místicos com devoção aos deuses até a escrita rebuscada, composta por um alfabeto de 80 glifos e 30 etnias com linguagem própria; astronomia precisa, com o cálculo dos calendários solar, lunar, marciano e venusiano; a criação do conceito matemático do zero; a agricultura sofisticada, baseada em milho e soja; e as relações mercantis entre as cidades-estado, cuja principal rota estabelecia-se entre Copán, Tikal, Chichén Itzá e Palenque, com destaque para o comércio de jade, sal, cacau e cerâmica.

Toda a história dos povos maias, que se espalhavam pelo México, Guatemala, Honduras e Belize, é contada através da arte e da arquitetura. Esculturas, cerâmicas e inscrições em pedras, por exemplo, carregam consigo mensagens complexas. E toda essa tradição durou até a invasão dos espanhóis, em 1517.

O mistério dos maias começou a ser desvendado no século 19, quando exploradores se depararam com magníficos monumentos na América Central. Roberto conta que, depois da descoberta da primeira escritura, demorou 170 anos para que se começasse a compreendê-las.  Faz 200 anos que os pesquisadores conseguiram decifrar por completo a escrita maia, bem depois de terem desvendado os significados das inscrições numéricas e calendáricas.

Apesar das descobertas, ainda restam muitos mistérios referentes ao povo maia. Atualmente, 35 projetos de escavação estão em curso no México, fora os que existem na Guatemala, em Belize e em Honduras.

Conforme seguimos em direção às primeiras obras principais expostas na OCA, lembro de uma frase que o jornalista Howard La Fay escreveu na reportagem que abre aquela NG de 1975: “A ascensão e queda dos maias iluminam não apenas a capacidade humana de grandeza, mas também a terrível afinidade com a destruição”. Depois da “curadoria” de uma hora, realmente compreendo o que Howard quis dizer.

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Painel dos Auto-sacrifícios

O desenho esculpido nesta pedra calcária conta uma história de K’inichi Janahb Pakal (à esquerda), um dos grandes líderes políticos maia, que reinou na cidade-estado Palenque, hoje chamada Chiapas. Já morto, Pakal aparece para os dois netos como um ser sobrenatural. Ele entrega a agulha de sacrifício (esporão de arraia) para um deles, o governante K’inich Ahkal Nahb’. O outro neto é U Pakal K’inich, irmão caçula e sucessor de Nahb’. “Depois de um hiato de poder, em que o filho de Pakal é assassinado por um grupo de outra cidade, a família está prestes a retornar ao poder através dos netos”, explica Afonso. No lado direito do painel, dois xamãs realizam um ritual de fim de período, em 22 de julho de 736 d.C. Eles utilizam incensários dos deuses patronos de Palenque: a divindade celeste G I, a terrestre Unen K’awiil (G II) e a do inframundo G III, patrono da guerra e do mundo subterrâneo.

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Vaso tripé com estatuetas

O personagem dentro do vaso é Búho Lanzadardos, um teotihuacano que governou a cidade-estado maia Becán. Ao morrer, fizeram esta peça para enterrar junto ao corpo do governante, como forma de celebrar o sistema de governo por ele criado. À esquerda, a outra metade do boneco tem na parte interna os setores sociais da sociedade teotihuacana. Roberto explica o que representa cada peça. Na cabeça, um sacerdote e a serpente emplumada. Nos antebraços, sacerdotes carregam espelhos. Nos músculos, os guerreiros. Na região do abdome, Búho Lanzadardos. Na altura do coração, um personagem da nobreza.

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A Rainha de Uxmal

Esta escultura em pedra calcária foi encontrada na pirâmide de Advino, o principal edifício da cidade-estado Uxmal, uma das mais importantes do mundo maia. Representa a serpente da visão com a boca escancarada, de onde emerge um ancestral que morreu e é invocado através do ritual de auto-sacrifico. Os círculos simbolizam pedras jade, água e beleza. O personagem talvez seja um governante que passou pelo ritual de iniciação, indicada pela cicatriz na face direita. Ele a teria herdado após ser engolido por uma serpente ochkan, a jiboia, e posteriormente expelido, já convertido em sacerdote-xamã.

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Dintel 48 de Yaxchilán

Dintel são objetos retangulares fragmentados cujo tema é a escrita. Este foi encontrado durante escavações na Estrutura 12 de Yaxchilán (hoje Chiapas) e data do Período Clássico Tardio. Feita em 534 d.C, é uma peça bastante conhecida, esculpida em pedra calcária, com duas colunas, cada uma com quatro glifos. Roberto estima que a estrutura esteja presente em 70% dos livros de arte maia. Refere-se à data de 9.4.11.8.16 2 Kib, ou 11 de fevereiro de 526 d.C. O que marca este dintel é o estilo caligráfico. Numerais de “Cuenta Longa” – similar com o calendário gregoriano, com cinco ciclos – são representados por glifos de cabeças, enquanto a “Rueda Calendárica” – muda a cada 52 períodos de 365 dias – traduzem-se nos de corpo inteiro. O calendário de Cuenta Larga é calculado de 20×20 (dias, meses, séculos e milênios) e 18×20 (anos).

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Monumento 146 de Toniná

Um governante em todo seu esplendor, classifica Roberto, extasiado. Esta escultura retrata K’inich Chapat, rei de Toniná entre 787 e 806 d.C. Nas mãos, ele segura o troféu com a máscara de Pakal, elemento da figura que denota poder. Na cintura, uma faixa bicéfala celeste noturna, com glifos de Marte, do Sol e do movimento. Talvez outro solar à direita, sugere Roberto. Dizia-se que apenas Chapat era capaz de carregar tal faixa, o que reforçava o poder e era o motivo pelo qual ele denominava-se “rei do cosmos”.  O toucado possui elementos do deus do Sol, como a ave que posa em cima e as orelheiras que veste. Nas máscaras, inscrevem-se dois glifos. “Kin”, uma cruz e um círculo ao centro. “Ahau”, mais abaixo, uma espécie de personagem com um pequeno círculo sobre outros dois – quase um rosto invertido.  Kinich Ahau, o governante supremo, o senhor do Sol.

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Prato Blom

Este artigo de cerâmica, cujas inscrições indicam que foi feito para celebração funerária, retrata uma história mitológica presente no livro Popol Vuh. A batalha travada entre os “gemelos preciosos” Hunahpú e Ixbalanqué (que se transformaram respectivamente no Sol e na Lua) e Vucub-Caquix, uma ave mitológica do inframundo. O pássaro posa sobre duas serpentes bicéfalas, que emitem elementos pelas bocas que representam sons. Isto simboliza a divindade celeste. Da toucada de Vucub-Caquix sai outro pássaro, um cormorão, que cospe um líquido precioso, da obscuridade. Com um tiro de zarabatana, os gêmeos vencem a batalha.

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Disco de Chinkultik

Roberto conta que esta peça não é tão importante em nível simbólico, mas sim historicamente. Por muito tempo acreditou-se que o objeto representava o calendário maia. Até descobrirem ser um marcador do jogo de pelota. Esta peça era colocada no chão do campo, e cada vez que a pelota a tocasse marcava-se um ponto. Ao centro deste marcador está o governante Chinkultik, vestido como um dos “gemelos preciosos”. Na pelota que ele segura, originalmente está gravada a imagem da cabeça de Hun Hunahpú, o primeiro dos gêmeos a ser decapitado. O toucado com plumas e flores de Chinkultik confirma que o jogo era um ritual com a finalidade de movimentar os astros no céu. As inscrições indicam que a partida fora realizada em data equivalente a 17 de maio de 591 d.C.

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Disco de Chichén Itzá e Espelho de Pirita

À esquerda, o Disco de Chichén Itzá (cidade-estado maia) nas costas dos guerreiros, na altura da cintura. Têm quatro figuras de serpentes que, como diz Afonso, denotam mitologicamente o Sol. Ao centro, colava-se um espelho. O disco é feito de madeira, turquesa, concha, coral e ardósia. A turquesa, aliás, era obtida no sudoeste da América do Norte, o que comprova o contato dos maias com regiões distantes. Já o Espelho de Pirita, à direita, é um artigo luxuoso típico da nobreza. Era enterrado junto com seus donos. Este, que está oxidado, foi encontrado no Enterro 1 do Edifício 4 de Bonampak, outra cidade-estado.

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Cabeça de Pakal

Os arqueólogos encontraram estas esculturas em estuque em 1957, após quatro anos de escavação no subsolo da pirâmide em que Pakal fora enterrado. Eles só podiam trabalhar nela durante a época de secas, ou seja, quatro meses por ano. Durante o sepultamento, as cabeças foram depositadas abaixo do sarcófago de Pakal – homenagem inédita na cultura maia –, na extremidade do “psicoduto”, perfuração nas tumbas que, na concepção deste povo, permitia a comunicação dos mortos a partir do inframundo. Os traços faciais indicam que a cabeça da direita represente Pakal na infância e a da esquerda seja de quando ele já era o famoso governante de Palenque.

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Marcador do jogo de pelota

Imponente, a maior peça da exposição retrata um costume que foi adotado pelos maias, mas originalmente surgiu antes da existência deles, datado de 1400 a 1250 a.C. Desenhos de serpentes esculpidas em relevo cobrem a superfície do anel de pedra. Este foi feito no período Pós-Clássico Inicial (900-1250 d.C) e encontrado a 8 metros do chão, no muro vertical do Grande Jogo de Pelota. Roberto conta qual é o significado mitológico por trás desta atividade: Um mundo governado pela morte seria quieto, silencioso. Então, jogam pelota para criar movimento, emitir sons. Tudo isso para manter a dinâmica das coisas, a afluência do mundo. Com este equilíbrio, nem a morte nem a vida reinam. Apenas co-existem.

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