Vice | O escritor que quer tornar o surf menos cool

Em visita ao Rio de Janeiro, o vencedor do Pulitzer William Finnegan conta por que seu esporte favorito não é tão pitoresco quanto parece.

Texto e retratos por Kevin Damasio
Vice, 9 de agosto de 2017

“Algumas pessoas me acusam de tornar o surf mais popular”, conta o escritor americano William Finnegan, de 64 anos, sentado em um sofá no jardim da Pousada Literária, em Paraty, no Rio de Janeiro. Ele apoia os cotovelos sobre as coxas, cobre o rosto com as mãos e com bom-humor rebate um dos efeitos de seu livro, Dias Bárbaros, dentro do nicho do surf. “Não, não, não, não, não. Me declaro inocente”, prossegue. “OK, o livro está circulando, mas muitas pessoas me dizem: ‘ah, eu tinha interesse em surfar antes, pensei em entrar em escolas de surf ou algo assim, e então li seu livro e falei: pfff, jamais!’.”

Lançado nos Estados Unidos em 2015, Barbarian Days reconstrói a vida paralela no surf de Finnegan, um jornalista que escreve para a revista New Yorker desde o final dos anos 1980 e é autor de outras quatro obras de não-ficção. Em 2016, o livro foi contemplado com o maior prêmio do gênero, o Pulitzer de biografia. Além disso, ser best-seller nos EUA impulsionou o interesse mundial e rendeu traduções para português, espanhol, francês, holandês, italiano e alemão.

“Espero que tenha desenhado um cenário realístico o suficiente para que as outras pessoas percebam: ‘Não, isso não é algo para se começar aos 40 anos, ou aos 30, ou mesmo aos 25’. Já é tarde. Não inicie”, brinca Finnegan.

“Mas eu já comecei aos 40”, ri, a seu lado no sofá, Jorge Oakim, publisher da editora Intrínseca, que publicou a versão brasileira do livro e começou a pegar onda após ler Dias Bárbaros.

Ainda com sorriso no rosto, Finnegan olha para Jorge. “Sério? Bom, com isso estou de acordo”, continua. “Mas não quero que tenha esse efeito de uma maneira geral. Já há surfistas de mais. Mas o livro tem sido publicado em países no Leste da Europa onde não há nenhuma conexão com o surf, não há litoral. Talvez o aspecto cool do surf as leve em direção a ele.” Finnegan recorda do lançamento em uma livraria em Paris, na França. O dono disse, em inglês: “Primeiro, quero te agradecer, porque, você sabe, normalmente sentimos uma desvantagem sexual para com os surfistas. Mas, agora, lemos seu livro e vemos que todos se transformam em uns Quasímodos bronzeados. O surf destrói seu corpo, você deixa isso claro.”

William Finnegan em Paraty, Rio de Janeiro, 2017.

Em Dias Bárbaros, Finnegan vai além do olhar exclusivamente pitoresco que a vida do surfista, quando vista de fora, aparenta ser. Ele investiga a própria história para construir as memórias de um surfista core.

Até o início dos anos 1990, Finnegan era de tal maneira devoto à esta paixão que sacrificou o tempo com a família, teve posturas egoístas em relacionamentos e deu às costas tanto à tradição de seguir uma carreira profissional como da vida psicodélica alternativa naqueles anos 1960 e 1970.

Aprender a surfar em San Onofre, na Califórnia, nos EUA, aos 10 anos, foi o estopim para duas décadas que Finnegan dedicou-se exclusivamente a ir atrás das ondas. Viveu o surf como contracultura na Califórnia, como cultura no Havaí e na Austrália e foi pioneiro onde o surf era inédito para os nativos de ilhas como as de Fiji e Indonésia – cujos mares atualmente são extremamente povoados, mas já foram um paraíso particular para os surfistas desbravadores.

No final de julho, Finnegan esteve no Rio de Janeiro para participar da Festa Literária Internacional de Paraty. Em um dia ensolarado, o americano prolongou um almoço em um bistrô francês no pé das montanhas, com um mergulho nas águas do litoral sul carioca.

Finnegan é um sujeito alto, cabelos grisalhos, barba feita e bem-humorado. Chegara no Brasil na noite anterior, mas já se sentia à vontade. Vestia uma fina camisa de manga curta, shorts jeans e chinelos. Com uma fala firme porém suave, ele conta suas histórias com detalhes. Constrói momentos e observações com a mesma calma de quando escreve, mas dotada de uma empolgação que coloca o ouvinte em cena – como faz em suas reportagens e livros.

A entrevista começa com uma pergunta com gancho no tema da mesa de Finnegan na Flip, que dividiu com a escritora sul-africana Deborah Levy e o mediador mexicano Angel Gurría-Quintana: por que você escreve?

“Bom, isso mudou ao longo dos anos. Costumava escrever ficção, contar histórias que davam um sentido literário ao que eu sabia, observava, vivia. Isso mudou quando morei na Cidade do Cabo, África do Sul, durante a era do apartheid. Eu tinha esse trabalho bem na linha de frente. Então eu queria escrever o que via, o que entendia que movia tal conflito.”

Finnegan viveu na África do Sul do final dos anos 1970. Pegava onda, claro, em picos como Jeffrey’s Bay. Porém, ser professor em uma escola para negros o atraiu para a vida real. Ao contrário de muitos de seus pares, ele incentivava os protestos dos estudantes contra o regime de segregação racial e buscava alternativas para fugir da grade alienada que deveria ensinar nas aulas. Em 1986, a experiência sul-africana foi tema de seu primeiro livro, Crossing the Line – um ano na terra do apartheid – na lista das dez melhores obras não-ficção nos EUA feita pelo New York Times.

“Antes, era uma ficção de vanguarda, experimental, difícil, bem literária e muito, muito opaca. E fui me interessando mais pela estética, pelo valor da transparência, que me conduzia à não-ficção, à literatura de fato”


O americano já nutria um interesse jornalístico durante a surf trip de 1978 a 1981. Esteve boa parte do tempo acompanhado pelo amigo Bryan di Salvatore, outro escritor e leitor. Eles começaram a viagem por ilhas do Pacífico Sul – Tonga, Samoa Ocidental, Fiji.

Depois, a dupla morou na Gold Coast, onde tiveram de arrumar trabalho com nome falso por conta do visto. Fora do expediente, extraíam o máximo dos crowdeados picos de surf da Gold Coast e se aventuravam pela desértica Western Australia.

Quando chegaram à Indonésia, a realidade do país chamou tanto a atenção de Finnegan como as ondas perfeitas e inexploradas de Grajagan, Nias e Uluwatu. Naqueles repressivos anos 1970 em que o país estava imerso, Finnegan já sentia em seu subconsciente que se transformava em jornalista.

Era época da antiga ditadura, contextualiza o americano. Antes teve o colonialismo holandês, a independência, um governo de esquerda, e então um genocídio em 1965, com cerca de um milhão de pessoas mortas. Logo em seguida, um governo militar de direita que durou de 1967 a 1998, enquanto Hadji Mohamed Suharto era presidente da Indonésia.

“Eu realmente queria saber o que aconteceu em 1965. Todo mundo sabia que algo tinha rolado. Depois teve o filme O ano em que vivemos em perigo(1982), com Mel Gibson. Era uma coisa famosa, mas você não ouvia uma palavra sobre isso na Indonésia. Nenhuma palavra. Nem em escolas. Nem em bibliotecas. Nem em livrarias. Ninguém falava disso. Eu perguntava: ‘Onde você estava em 1965?’ ‘Eu não sei do que está falando.’ Uma hora consegui que algumas pessoas me contassem. Com um cara na Sumatra, que era um motorista de pedicab [que transporta pessoas em triciclos adaptados]. Eu sabia um pouco de bahasa indonésia, mas ele falou em inglês. Era um professor em 1965 e sobreviveu, mas era nisso com que trabalhava agora. Ele me contou sua história, incluiu o envolvimento americano. Naquele período, as pessoas não queriam ser presas. Era perigoso para os indonésios, mas definitivamente não era para estrangeiros, apesar de ser um local difícil de se viajar. E as ondas não eram crowdeadas. Eu surfava Nias com duas pessoas na água, o que é absolutamente mágico.”

Como eram os textos antes do tempo da África do Sul? “Lentamente se tornava mais legível”, diz ele, espaçando as palavras. “Antes, era uma ficção de vanguarda, experimental, difícil, bem literária e muito, muito opaca. E fui me interessando mais pela estética, pelo valor da transparência, que me conduzia à não-ficção, à literatura de fato. Mas até então não sabia para onde eu caminhava.”

Finnegan em seu hobby nada convidativo em Ocean Beach, Califórnia. Foto: Arquivo Pessoal

Depois de encerrar sua surf trip, Finnegan mudou-se para a San Francisco, Califórnia. Viveu intensamente a atmosfera do surf em Ocean Beach – de poucos surfistas, diante das ondas grandes, geladas e cheias de tubarões. Ao mesmo tempo, iniciou sua vida de escritor, com reportagens in loco para as revistas Mother Jones e New Yorker, cujos temas até hoje navegam entre política, guerra e direitos humanos, sempre investigativas e literárias.

Em Dias Bárbaros, esse momento é contado no capítulo “Contra a vagabundagem”. Nas palavras de Finnegan, ele passou de um surfista vagabundo e romancista não-publicado para um jornalista sério. A transição acontece a partir do momento em que o jornalista resolve “sair do armário” como surfista, com um perfil sobre o surfista de Ocean Beach, Mark “Doc” Renneker. A reportagem, que envolve o personagem e a comunidade de surf local, foi dividida em duas extensas partes.

“Eu escrevia principalmente sobre política, mas tive uma oportunidade naNew Yorker. Escrevi uma curta matéria sobre a guerra civil na Nicarágua, e alguém do escritório disse: ‘Se quiser escrever reportagens maiores, essa é uma oportunidade, você tem a atenção dos editores.’ Então, pensei: ‘Preciso ter uma ideia agora mesmo.’ Mas eu não tinha. Na época, vivia em San Francisco e surfava com o Mark. ‘O que acha de um perfil desse surfista de ondas grandes, que é um cara muito interessante?’ Eles compraram a pauta, e levei sete anos para escrever o perfil. Perdi alguns deadlines, escrevi três livros nesse tempo e fiz muitas outras coisas. Penso que isso se deve a algumas razões. Primeiro, não sabia se era o cara para escrever sobre surf. Não queria revelar isso aos meus leitores da New Yorker, porque não era parte da minha vida pública – problemas, guerras, políticas, apartheid.”

Finnegan sempre foi um leitor assíduo – uma característica, observa ele, não tão comum entre surfistas. Na infância, lia James Michener e outros escritores populares. Desde a adolescência, mergulhou nas obras de James Joyce, Ernest Hemingway, Jack Kerouac e Liev Tolstói.
Aos 13 anos, ele mudou-se com a família para a ilha de Oahu, no Havaí, para onde seu pai fora transferido no trabalho como produtor de programas de TV. Finnegan escrevia cartas assídua e diariamente para seu melhor amigo, que vivia em Los Angeles.

Eram retratos de uma época em que Finnegan descobriu o surf como refúgio para a vida de haole que vivia – termo usado pelos locais para designar os forasteiros, uma minoria que, na época, normalmente se aliava a grupos e gangues para não apanhar dos nativos. Em 2007, o melhor amigo encontrou as correspondências na garagem de casa na Califórnia, guardadas pela mãe.

“Eu não lembrava de tê-las escrito, mas ali estavam. Eram centenas de páginas, longas cartas. Todas as noites, por dois anos, escrevi aquelas cartas sobre escola, garotas, tudo na minha vida, principalmente sobre o surf. A escrita era terrível, de dar vergonha. Toda onda era bitchen, toda menina era bitchen. Tudo. Bitchen! – uma expressão americana da época. Mas os detalhes… eu conseguia sentir o cheiro de tudo daqueles tempos. Era uma mina de ouro. E simplesmente pensei: ‘É por aí que esse livro começa’.”

Atualmente, Finnegan vive com a esposa, Caroline, e a filha, Mollie, em Nova York. Continua atrás das ondas, mas de uma maneira menos feroz. Aproveita as férias com a família para passar em lugares longe dos holofotes dos surfistas. Na América Central, viaja para as ilhas Virgens Britânicas e Martinica. Na América do Norte, embarca em swells gigantes para Porto Rico e nas mexicanas Baja Califórnia e Oaxaca.

Para Tavarua, onde foi um dos primeiros a surfar em 1978, “engoliu o orgulho” e se hospedou no resort que privatizou a onda de Cloudbreak, de 2001 a 2010 – e para lá deixou de ir quando não-hóspedes foram permitidos, e com isso o crowd chegou. Já na Indonésia, joga-se para no meio da selva para lugares de ondas perigosas, grandes e pouco turísticas, como Panaitan, Appocalypse e One Palm Point.

Na portuguesa Ilha da Madeira, aproveitava a perfeição das ondas para revezar com a escrita de longas reportagens que já apurara. Já em casa, em Nova York, também escreve colunas de opinião no site da New Yorker – muitas envolvem o retrocesso humano e ambiental provocado pelo presidente Donald Trump.

Enquanto isso, está de olho nos aplicativos de previsão de onda, para manter o espírito que carrega desde a infância: o de surfista hardcore. Mas o que é isso, atualmente?

“Eu acho… que é a mesma coisa de sempre”, explica Finnegan, enquanto mostra as ondas de Nova York e explica em que condições funcionam melhor ondas como Montauk, em Long Island. “Eu, que vivo em Manhattan, e meus amigos estamos nessa vida de metrópole, mas sempre sabemos como está a maré, o vento, a ondulação.”

No verão, a estação atual no Hemisfério Norte, eles não acompanham as previsões com tanto afinco, por saber que é a pior época para o surf em NY. “Mas, na maior parte do tempo, no outono, inverno e primavera, sempre estamos de olho. Isso que é um surfista hardcore. Você sempre sabe o que acontece e tenta prever onde o mar estará bom.”

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