NatGeo | Conexão Haiti

A jornada de sonhos e dramas do mais novo e crescente grupo de imigrantes do Brasil

 

Por Kevin Damasio | Fotos Giulio Paletta
National Geographic Brasil 177, dezembro de 2014

 

Castin Serge está sentado em um corredor na Chácara Aliança, abrigo de imigrantes em Rio Branco, capital do Acre. Ele olha fixamente para a frente e para baixo. Parece cansado. Com mãos inquietas e longas pausas, busca palavras para tentar dimensionar, em seu inglês limitado, a turbulenta travessia que venceu para chegar ao Brasil.

São os primeiros dias de uma nova vida para ele. Uma vida ainda incerta. Tudo começou no início deste ano, quando seu pai lhe perguntou se conseguiria em cinco anos construir uma vida decente no país caribenho. O jovem cursava ciência da computação, em uma condição de ensino superior à da maioria de seus conterrâneos. Por outro lado, ponderou já estar com 25 anos e desejar constituir uma família. A resposta foi seca: “Não, pai. Depois da universidade não sei se encontrarei emprego. Para ajudá-lo, preciso deixar o Haiti”. As contas foram feitas. Debilitado por um recente derrame, o pai vendeu sua caminhonete e uma pequena propriedade. Comprou uma passagem de avião para o Equador e fez um empréstimo de 500 dólares. Assim, Castin, o mais velho dos seis irmãos, duas semanas depois de deixar a cidade de Gonaïves, está ali, no meio da Amazônia, à espera de um golpe de sorte do destino – a chance de regularizar sua situação e procurar um emprego em cidades mais ricas do Sul e do Sudeste do país.

Em dezembro de 2010, o Brasil abriu as portas para os cidadãos do Haiti, vitimados pela pobreza que se agravou depois do maior terremoto da história do país, em 12 de janeiro daquele ano. A tragédia afetou um terço da população; 220 mil pessoas morreram e 1,5 milhão ficaram desabrigadas. Um surto de cólera, em 2010, e dois furacões, em 2012, agravaram o caos. O alto desemprego estimulou os haitianos a partir em um fluxo desesperado em busca de vagas no exterior. O Brasil virou um destino cobiçado: além de seu amplo mercado de trabalho, mantém ótimas relações diplomáticas – o Exército brasileiro lidera a Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti (Minustah) desde 2004.

Mas a burocracia para conseguir a documentação correta de imigração no Haiti – no caso, um visto humanitário – induziu muitos jovens a uma rota clandestina e cheia de riscos, contando com o apoio de intermediários, os “coiotes”. Eles viajam de avião até o Equador, muitas vezes com escala na República Dominicana. Em seguida cruzam o Peru ou a Bolívia por terra, até chegar à fronteira com o Acre. Entram no país pela cidade de Brasileia ou de Assis Brasil, de onde seguem para regularizar sua situação na capital Rio Branco. “Encontrei problemas no caminho”, conta Castin. “No Peru, há muitas pessoas… que querem…” “Explorar?”, completo, ao perceber que ele não encontra a palavra certa.

“Exatamente. Na fronteira do Equador com o Peru, minha história de terror começou.”

 

Immigrants and refugees at the center provided by Acre government to temporary welcome the immigrants in Rio Branco (Acre capital state) until they get the documents they need to be able to travel to São Paulo and to the rest of Brazil looking for a better life. Normally they spend here 7-10 days, depending on the time necessary to get the travel documents
Haitianos aguardam no abrigo do governo do Acre, em Rio Branco, até que tenham em mãos os documentos de que precisam para viajar para São Paulo ou outras cidades do Sudeste e Sul do Brasil. A maioria dos imigrantes fica no lugar por no máximo 15 dias.

Os haitianos viajam para o Brasil sem saber dos perigos dessa rota ilegal. Para instruir futuros imigrantes, o padre Onac Axenat, de 35 anos , quer voltar ao Haiti. O missionário está no Brasil desde novembro de 2010. Estudou português em Brasília por três meses e se mudou para Rio Branco com o projeto de construir uma paróquia. Onac acompanha o novo fluxo migratório desde o fim de 2011. Os recém-chegados eram bem reservados, nada contavam sobre a saída de seu país, mas aos poucos o religioso descobriu que gastavam até 4 000 dólares na viagem – e chegavam de mãos abanando à fronteira brasileira. Onac denunciou a situação como tráfico de imigrantes. “Ligaram para me ameaçar, mas fiz o que era preciso. Ouvi português, espanhol, creole. É uma rede internacional de coiotes”, diz.

“Essa rota vai continuar a existir enquanto ocorrer ação ostensiva desses intermediários”, alerta Nilson Mourão, de 62 anos, secretário de Justiça e Direitos Humanos do Acre. Para ele, desmontar a rota é uma operação que requer estratégia de identificação e repreensão por parte de todas as nações envolvidas – Haiti, República Dominicana, Equador, Peru, Bolívia e Brasil. Além disso, diz ele, é preciso facilitar a emissão do visto humanitário e de outros papéis nas embaixadas brasileiras. “Os coiotes”, explica, “vendem a ideia de que, pela rota ilegal, os haitianos serão logo documentados – o que é verdade. Por outro lado, é um processo perigoso e demorado. Os viajantes gastam mais, levam até 15 dias para chegar e são humilhados e explorados.”

O volume de imigrantes vindos do país caribenho só aumenta. Em setembro, 700 estavam no abrigo em Rio Branco – eram 175 em julho. Em 2013, o número de haitianos no Brasil superou 20 mil, quase 25% em São Paulo. Já para o final de 2014, a Organização Internacional para as Migrações estima chegar a 50 mil.

Castin Serge escorregou em um trecho pedregoso na trilha que leva à fronteira entre Equador e Peru. Cortou o calcanhar esquerdo, abandonou os sapatos e acelerou o passo para alcançar os dois senegaleses e o coiote peruano, para quem havia dado parte do dinheiro que trouxera do Haiti. Atravessaram um rio, ao encontro de motos-táxi que os aguardavam no Peru para levá-los até um hotel. Nos dias que se seguiram, Castin sofreu extorsão, furto, fome, sede. Pouco dormiu em hotéis precários ou escondido em vans e ônibus. “Os intermediários nos fazem acreditar que devemos ter medo da polícia, pois senão vão nos prender e deportar”, conta Castin, conformado, no abrigo em Rio Branco.

Na cidade peruana de Chiclayo, os imigrantes pagaram o que haviam combinado. No entanto, a cada parada, coiotes ou policiais corruptos exigiam mais dinheiro. Além disso, a mochila do haitiano acabou confiscada em um táxi contratado pelos coiotes, com laptop, roupas, sapatos e artigos de higiene. Castin nunca mais a viu. Ficou apenas com a maleta cheia de livros e documentos, também saqueada dias depois.

Haitians and Senegaleses, ready with their bags for the long trip to São Paulo patiently wait the bus to arrive at the refugees center in Rio Branco. Acre government every week rents 2,3 buses to take those immigrants who already got the necessary documents, to São Paulo, a 4 days trip
Haitianos e senegaleses perfilam-se em Rio Branco para a viagem de 3 800 quilômetros em 66 horas até São Paulo, em um ônibus alugado pelo governo do Acre.

Apesar dos percalços, os imigrantes seguiram para Lima e depois para Cusco. Ali, os coiotes avisaram que, para continuar, queriam pelo menos mais 50 dólares. Castin convenceu-os de que não tinha. Os peruanos, contudo, permitiram que ele continuasse o percurso sem pagar – pois o espanhol falado pelo haitiano, mesmo ruim, facilitava o diálogo com o resto do grupo.

Em Puerto Maldonado, na Amazônia peruana, Castin passou duas noites em um quarto de hotel barato, compartilhando uma tábua de madeira que servia de cama com duas conterrâneas. O trio juntou 45 novos soles para contratar um táxi capaz de levá-los à fronteira entre Peru e Acre. Por instrução do taxista, passaram a noite em um hotel em Iñapari, cidade fronteiriça e vizinha da acreana Assis Brasil. De manhã, foram até Brasileia. Retiraram o protocolo de refúgio na Polícia Federal e em seguida tomaram uma lotação, ao preço de 25 dólares cada um. Duas horas e meia de estrada depois, chegaram ao abrigo de imigrantes em Rio Branco. Exaustos, famintos e quase sem dinheiro.

O refúgio de Brasileia, a primeira parada da maioria dos imigrantes até meados deste ano, passou por grandes crises. A pior foi de março a abril de 2014, com a enchente do Rio Madeira – 2 500 estrangeiros ficaram sitiados no precário município de 20 mil habitantes. Aviões da Força Aérea Brasileira levavam mantimentos ao Acre e seguiam para Rondônia com imigrantes, que dali partiam para outros destinos. Em julho, quando Castin chegou ao país, o abrigo oficial acreano havia acabado de ser transferido para a capital Rio Branco, na Aliança, uma chácara com capacidade para abrigar 250 pessoas.

As secretarias estaduais de Desenvolvimento Social (Seds) e de Justiça e Direitos Humanos (Sejudh) alternam a cada semana a coordenação do espaço. Os haitianos dividem-se em dois blocos para homens e um para mulheres. Há ainda um setor para imigrantes de outros países, em grande parte senegaleses, e outro para mulheres grávidas ou com crianças pequenas. A maioria dos estrangeiros fica ali por no máximo 15 dias, o tempo de tirar CPF, carteira de trabalho e se vacinar contra febre amarela, hepatite e tétano. Acompanhantes de jovens e crianças, assim como grávidas, hospedam-se por mais tempo. Café da manhã (pão com manteiga e café com leite), almoço e jantar são financiados pelo governo do Acre. As marmitas são sopa ou refeições tradicionais no Haiti, com arroz e feijão empapados, macarrão ao alho e óleo, legumes cozidos e um tipo de carne, sobretudo frango ensopado.

Como era de esperar, um mercado surgiu no abrigo para atender às demandas dos imigrantes – materiais e emocionais. Na lan house local, meia hora de internet custa 1 real. Negócios mais informais podem ser bem promissores – no dia em que visito o lugar, o senegalês Abdoulahat Lô permite que os imigrantes façam ligações em seu laptop, em troca de 2 reais por minuto. Conheço Charles Pierre Kenny, um haitiano de 27 anos que fala português – aprendeu o idioma quando foi intérprete na Minustah. O objetivo dele é o mesmo de todos: enviar dinheiro à família. “No Haiti, se não gastar muito, dá para viver com 200 dólares por mês”, diz. Pai, mãe e irmão ficaram em Porto Príncipe. No terremoto de 2010, a casa deles foi abaixo. A família mora num barraco enquanto, aos poucos, constrói outra casa.

Inside the bus. Haitians and Senegaleses, ready with their bags for the long trip to São Paulo patiently wait the bus to arrive at the refugees center in Rio Branco. Acre government every week rents 2,3 buses to take those immigrants who already got the necessary documents, to São Paulo, a 4 days trip
Os ônibus fretados saem sempre lotados de Rio Branco rumo a São Paulo. O destino depois depende das ofertas de trabalho.

As mulheres gestantes ou com crianças são geralmente haitianas que vieram encontrar parentes já estabelecidos no país. Gaelle Cesar, de 18 anos, grávida de oito meses, insiste na ideia de ir de avião para Santa Catarina, ao encontro da mãe. Precisaria de autorização médica, e por isso Antonio Crispim, coordenador do abrigo, vai levá-la para consulta no dia seguinte. Ela vem conversar comigo. “Sou forte. Não tenho problema em viajar. Atravessei do Equador ao Peru em muitos ônibus. Foram sete dias para chegar até aqui. Sei que Deus vai me ajudar”, diz. Sua fé em que tudo vai dar certo funciona. Depois da consulta, ela é autorizada a viajar.

Os imigrantes têm três opções para continuar a viagem: por conta própria, contratados por empresários ou com os ônibus fretados pelo governo acreano para São Paulo. Os destinos variam conforme as ofertas de emprego. Nos dez dias que passo no abrigo, um abatedouro de aves de Paranavaí, no Paraná, recruta 74 haitianos – entre eles, Castin e Kenny – e um frigorífico de suínos de Estrela, no Rio Grande do Sul, leva outros 30.

Um ônibus é confirmado para São Paulo. Um funcionário anuncia a viagem no megafone, e todos correm para entregar os passaportes. As 44 vagas são preenchidas em 15 minutos.

O destino é a estação Barra Funda, na capital paulista. Partimos às 7 da noite. O clima é de alegria e apreensão. A viagem será longa, exaustiva. Nas 66 horas seguintes, vamos encarar 3 800 quilômetros de estrada, com oito paradas de meia hora para comer e usar o banheiro. Quase todos vão para a Casa do Migrante, um projeto coordenado por missionários cristãos que fazem um trabalho assistencialista com os refugiados.

De madrugada, atravessamos de balsa o caudaloso Rio Madeira, que separa Acre e Rondônia. Às 5 da madrugada, chegamos a Porto Velho. Mudamos para um ônibus mais apertado, porém em bom estado. Eu me acomodo em uma poltrona no meio do veículo e caio no sono. Duas horas depois, fazemos a primeira parada do dia. Na lanchonete, os haitianos refestelam-se com fatias de pão caseiro com manteiga derretida. Café com leite aquece do frio matinal.

Haitian immigrants travel by metro to the Casa do imigrante, a shelter managed by the Catholic church in Liberdade neighbourhood in São Paulo
Da estação Barra Funda, os haitianos seguirem de metrô até o bairro Liberdade, de onde seguiram para a Casa do Migrante, programa da Igreja Católica que acolhe os recém-chegados.

De volta ao ônibus, os haitianos tentam descontrair o clima, mas logo as gargalhadas dão lugar ao silêncio. As incertezas são muitas. Onde arrumar emprego. Como ganhar dinheiro suficiente para enviar ao Haiti. Ter moradia razoável. Aprender português. Adaptar-se à nova cidade… Por outro lado, a esperança, que os fez superar a tortuosa rota na mão dos coiotes, reluz nas expressões de cada um. Ainda não sabem como, mas estão perto de se estabelecer no Brasil e poder ajudar os familiares a reconstruir suas vidas.

Mais 2 900 quilômetros de estrada nos aguardam. Angeline Aimable ajeita-se a todo instante na poltrona, sem achar posição confortável. O olhar expressivo reflete a coragem com que essa haitiana de 22 anos, grávida de seis meses, vem viajando desde seu país. Por fim, ela resolve esticar a blusa no chão do corredor e deita de barriga para cima. Descansa assim por meia hora. De São Paulo, Angeline ainda terá de encarar mais oito horas de ônibus até Curitiba, no Paraná, ao encontro do primo.

No começo da noite, estamos na rodoviária de Vilhena, na divisa com o Mato Grosso. Os problemas aparecem. A maioria dos haitianos já não tem dinheiro para comer. Alguns reclamam de fome, outros vão apenas ao banheiro e voltam à plataforma de embarque. A cena persiste no dia seguinte. Em Várzea Grande, dois haitianos perguntam o preço do café com leite em um restaurante, mas não têm os 2 reais. A fome gera, no fim do dia, uma cena de solidariedade: seis grupos de quatro haitianos dividem marmitas. Lembro-me do que muitos haviam me dito: “Somos do mesmo país. Somos irmãos”.

Seguimos madrugada adentro. Atravessamos o Mato Grosso do Sul e o interior paulista. A última parada antes do destino final é em Ourinhos. Os imigrantes dominam o banheiro, lavando o rosto e os cabelos com sabonete e xampu na pia. A maioria não tem dinheiro para tomar café, inclusive eu. Na passagem por Boituva, Tertulien Pressoir, de 34 anos, pergunta se já chegamos a São Paulo. Abens Alcy, na poltrona ao lado, quer saber onde estamos. A cena se repete quando passamos por Barueri e por Osasco. Estamos perto. A ansiedade fica clara no silêncio que agora impera. A fome aperta. Abro um pacote de biscoito integral e divido com outros nove haitianos.

Às 2 da tarde, desembarcamos na estação Barra Funda. O alívio por ter chegado ao destino dura pouco. Novos problemas aparecem. Não há ninguém para receber e orientar os imigrantes. Mal pego minha mala no bagageiro e os haitianos se aglomeram ao meu redor com diversas questões. Todos querem saber o que fazer a seguir.

Alguns, para seguir viagem – Campinas, Santa Catarina, Curitiba, Goiânia –, precisam ligar para conhecidos e pedir o número do bilhete de ônibus. Outros vão ficar em São Paulo, em abrigos provisórios ou na casa de conterrâneos. Uma vida nova está prestes a começar. Por fim, vamos todos de metrô para o Centro da capital.

Inside a house of Haitians near Se square in São Paulo, Brazil
Rony Saincilien mora com a mulher, Nacilia, em uma ocupação em São Paulo. Os haitianos começam a emergir das sombras da imigração ilegal e firmam-se como mão de obra para muitas atividades no país.

A Casa do Migrante pode abrigar 110 pessoas por noite. De janeiro a setembro deste ano, passaram por ali 3 462 haitianos – no total, em 2013, foram 2 272. Os viajantes recebem alimentação, suporte jurídico, psicológico e de saúde, além de aulas de português e inglês. Paolo Parise, de 47 anos, padre italiano que coordena a Missão Paz, dirige-se aos recém-chegados, acompanhado de um intérprete brasileiro e outro haitiano. Explica que não há espaço para todos dormirem ali, então muitos ficarão no abrigo da prefeitura, do outro lado da rua. Em um salão, todos aguardam para jantar – comida, finalmente.

Uma das maiores preocupações da Missão Paz é evitar que os imigrantes acabem submetidos a empregos suspeitos – não raro em condições análogas à escravidão. Contratantes assim, segundo Paolo Parise, espalham-se pelas portas das estações de metrô na região central de São Paulo. Em agosto, duas operações de fiscais do trabalho, com suporte da polícia, resgataram um grupo de 19 bolivianos e 12 haitianos reféns de tais situações em confecções clandestinas.

Para evitar o problema, a Missão Paz criou o Eixo Trabalho, pelo qual quase 2 mil imigrantes já conseguiram emprego. Em dois dias da semana, empresários vão ao abrigo, onde são orientados sobre o processo de contratação. A equipe da missão exige salários justos, expõe as condições de trabalho e faz o cadastro das empresas. Enquanto isso, os imigrantes assistem a palestras sobre direitos e deveres trabalhistas e são informados sobre as vagas disponíveis. Em seguida, contratantes e imigrantes encontramse. Após três meses, assistentes sociais visitam as empresas para acompanhar a situação.

Foi assim que Jacson Casimir, de 24 anos, e outros quatro conterrâneos conseguiram vagas em um restaurante italiano de São Paulo. A firma contratante foi fiadora no aluguel de uma casa de três quartos para os haitianos, pagou o primeiro mês de aluguel e comprou para o grupo roupa de cama, toalhas, artigos de higiene, uniformes e sapatos. Os 60 empregados do restaurante doaram quase 2 000 reais, quantia que serviu para a primeira compra de mercado dos imigrantes. Durante 15 dias, um funcionário os acompanhou até o restaurante para ensinar a pegar ônibus. “Sou muito grato por tudo isso”, diz Jacson, já em bom português.

Trabalho não é tudo. É preciso ter onde viver, e muitos imigrantes já engrossam as fileiras por demandas habitacionais na cidade. Tertulien Pressoir, que veio no mesmo ônibus que eu desde Rio Branco, alojou-se com sua prima, Nacilia Nacius, em um prédio em frente à Praça da Sé – uma ocupação praticamente só de haitianos, administrada pelo grupo Luta por Moradia Digna. O apartamento tem apenas um cômodo, que serve como quarto, sala e cozinha. O banheiro comunitário fica no corredor.

Nacilia, de 32 anos, veio para o Brasil antes do marido, pela rota ilegal, em janeiro de 2013. Rony Saincilien, de 35, chegou após quatro meses. Falar espanhol os ajudou a aprender português e arrumar emprego – ele em construção civil, ela em uma confeitaria. Recebem, juntos, 2 000 reais e plano de saúde. Para morar na ocupação, pagam 300 reais mensais, quase metade do que lhes custava o aluguel de um apartamento no Cambuci. Os três filhos pequenos do casal ficaram em Cap Haïtien, com os pais de Nacilia – que está grávida de novo. As ligações semanais não são suficientes para diminuir a tristeza, evidente no olhar distante dela ao falar de Ronika, Carly e Hannah.

Saudade. Eis um drama elementar na vida dos imigrantes, mesmo os que concretizam o sonho de se estabelecer no Brasil. “Depois que meu filho nascer, vou ganhar documento”, conta Nacilia, referindo-se ao visto permanente. “Meu marido então vai poder buscar os outros no Haiti.”

Jacson, 24 years old. He works as bartender at Vicolo Nostro, an Italian restaurant in Brooklin neighbourhood in São Paulo, Brazil
Novas carreiras: Jacson Casimir trabalha como barman no Vicolo Nostro, restaurante italiano no bairro do Brooklin, em São Paulo. Ele foi um dos 400 imigrantes haitianos que chegaram à capital paulista na primeira semana de abril de 2014.

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